Resistência – Michel Pêcheux

A resistência é uma elaboração do erro que e repete até tranformar o próprio sentido. Se o discurso é um efeito de sentido entre locutores (Pêcheux, 1997) e, ao mesmo tempo, o sujeito do discurso é interpelado por formações discursivas, é necessário lembrar que todo ritual está sujeito a falhas e, portanto, todo discurso está sob a tensão do erro que abre margens para uma nova semântica. 

Da série “Michel Pêcheux: Conceitos Fundamentais“.

Índice

Introdução

A resistência se encontra entre o realizado e o irrealizável. A própria atitude revolucionária é compromissada com a realização daquilo que é imprevisível, imprevisto, impensado. Para Michel Pêcheux (1990), nas falhas intrínsecas aos processos de interpelação ideológica conforme formulado por Louis Althusser (1980), há a possibilidade do novo, do diferente, do contraditório ou do criativo.

A própria língua em sua estrutura constrói o latente do invisível que somente não tomou sua forma manifesta por um detalhe histórico:

A existência do invisível e da ausência está estruturalmente inscrita nas formas linguísticas da negação, do hipotético, das diferentes modalidades que expressam um “desejo”, etc., no jogo variável das formas que permutam o presente com o passado e o futuro, a constatação assertica com o imperativo da ordem e a falta de asserção do infinitivo, a coincidência enunciativa do pronome eu com o irrealizado nós e a alteridade do ele (ela){ e dos eles (elas)… Através das estruturas que lhe são próprias, toda língua está necessariamente em relação com o “não está”, o “não está mais”, o “ainda não está” e o “nunca estará” da percepção imediata (Pêcheux, 1990, p. 8).

É inevitável, segundo o autor, a questão do invisível, a questão daquilo que não se mostra concretamente ou simbolicamente, mas que se encontra latente em sua própria ausência delimitada linguisticamente. Na presença de sua ausência. A passagem de um mundo a outro (de um mundo vigente para um mundo pós-transformação) é, então, um problema central na construção de uma revolução, sendo que esta passagem representa o próprio nascimento de um mundo novo, a própria realização do irrealizado latente de uma formação social específica.

A partir destas reflexões de Pêcheux (1990), irei expor sua noção de resistência que, apesar de não ser tão longamente elaborada como a de Michel Foucault, opera uma possibilidade de pensar diferentes formas de luta no interior da própria luta ideológica.

As revoluções

A revolução francesa pode ser compreendida como uma destruição daquilo que separava materialmente a possibilidade da construção ideológica de um povo uno.

As ideologias feudais supunham a existência material de uma barreira linguística que separava aqueles que, por seu estado, eram os únicos suscetíveis de entender claramente o que tinham a ser dizer, e a massa de todos os outros, tidos como inaptos para se comunicar realmente entre si, e a quem os primeiros só se endereçavam pela martelação retórica da religião e do poder (Pêcheux, 1990, pp. 8-9).

A revolução francesa foi responsável pela destruição deste mundo duplo, desta separação entre um mundo legítimo e um mundo ilegítimo, ou entre um mundo sagrado e um mundo profano. Foi a responsável por tornar uma população difusa, mas dividida entre aqueles que poderiam ter acesso ao centro da verdade e aqueles que só poderiam encontrá-la pelo intermédio dos autorizados em uma sociedade que realizou o irrealizável: rompeu a barreira específica da língua a partir da adoação de uma política da língua e construiu uma população enquanto elemento político. O “nós”, o “todos” e o “cada um” que incorpora todas as possibilidades e variações da vida em uma sociedade sem uma separação profunda entre autorizados e não autorizados pôde se realizar numa novidade momentânea.

O resultado do que acabamos de lembrar brevemento consiste em uma mudança estrutural na forma das lutas ideológicas: não mais o choque de dois mundos, separados pela barreira das línguas, mas um confronto estratégia em um mundo só, no terreno de uma só língua, tendencialmente Una e Indivisível, como a República (Pêcheux, 1990, p. 11).

A alfabetização, a instituição de uma língua nacional e o aumento da cobertura do aparelho jurídico no território do Estado-nação em formação foram elementos para destruir determinados particularismos históricos, costumes locais, concepções ancestrais e etc, que entravavam a criação de uma nação.

Nas revoluções da metade do século XIX, uma nova barreira pretende ser desfeita:

A burguesia é obrigada a proclamar o ideal de igualdade frente à língua como uma das condições efetivas da liberdade dos cidadãos, organiando simultaneamente uma desigualdade real, estruturalmente reproduzida por uma divisão no ensino da língua e da gramática (Pêcheux, 1990, p. 11).

A política da língua única e oficial imprime uma nova forma de desigualdade que substitui a barreira anterior, do mundo monárquico: a escrita.

Por sua vez, nos conjuntos proletariados emerge uma forma específica de irrealizado que se faz como real: o movimento popular começa a nascer de maneira organizada na descoberta que a dominação da ideologia jurídica insere na vida da república uma barreira invisível de característica política, na medida em que a igualdade jurídica não só fundamenta como fortalece a desigualdade política e econômica enfrentada pela classe dominada.

Há um duplo caráter ideológico dos aparelhos burgueses: um caráter regional, setorizado, como a ideologia jurídica, a ideologia da família, etc; mas um caráter de classe, em que os mesmos termos significam coisas diferentes a depender da classe social do sujeito.

Este duplo caráter dos processos ideológicos (caráter regional e caráter de classe) permite compreender como as formações ideológicas e discursivas nas quais eles se inscrevem se referem necessariamente a “objetos” (como a Liberdade, a Ordem, a Igualdade, a Justiça, a Ciência, o Poder, etc.) que são ao mesmo tempo idênticos e antagonistas em relação a si mesmos, quer dizer, cuja unidade é submetida a uma divisão: o próprio da luta ideológica sob a dominação burguesa consiste em desenrolar-se em um mundo que não acaba nunca de se dividir em dois (Pêcheux, 1990, p. 12).

A base de trabalho dos revolucionários do século XIX era a transformação do mundo já existente, desnudando as relações que eram ocultadas pelas ideologias regionais e de classe e tornando as relações de produção de fato transparentes. Uma luta que se situa no entorno da barreira política invisível em torno do Estado (que parece ser somente administrativo), a tornando visível para si mesmo, revigorando a possibilidade deste novo sujeito da História a transformar.

Já nas revoluções do século XX, o inexiste e irrealizado era a própria revolução mundial, que não poderia ser diminuída a uma administração política eficiente num só país. A URSS era manifestação de um ataque ao capitalismo em suas zonas de desenvolvimento, não necessariamente em seu centro: um outro mundo, um socialismo localizado, uma utopia realizada (mas não uma heterotopia), uma realidade distante, separada pelas próprias fronteiras que a necessidade histórica de sobrevivência imprimiu às políticas soviéticas.

Novas barreiras foram criadas: 1) as barreiras da própria fronteira, que separa um mundo exterior e um mundo interior, sitiado; 2) mas também as fronteiras internas por meio das hierarquias e protocolos que garantiam a legitimidade do discurso oficial, em que o “nós” seria supostamente o povo falando para si mesmo, num desembaraço específico em que a comunicação deixaria de ser intermediada por uma ideologia e seria praticada naturalmente, como uma ordem natural em que não há lugar para contradições.

A luta de classes atravessa todo o espaço da “sociedade sem classes”, e não somente os meios intelectuais; mas “a questão dos intelectuais” é a forma visível que toma esta luta, no momento em que ela é negada e contida; pois ela é o lugar onde a adversidade interna da sociedade socialista (o ponto inassinalável desta dversidade sem adversário) vem se materializar: jogando com as novas fronteiras visíveis, uma fronteira invisível de tipo novo, sinuosa e móvel, se constituiu em torno do Partido-Estado; inapreensível e invisível, ela torna visível a adversidade, produzindo o adversário, tomando o intruso interno como “traidor”, “sabotador” e “agente do inimigo”, e expulsando-o para fora do “nós” unânime do indivíduo social universal que ela assim protege e reproduz (Pêcheux, 1990, pp. 14-15).

Novamente, a barreira da língua se faz real, pois esta fronteira entre o “nós” e o “traidor” separar a própria semântica oficial e a ilegítima. Se a fraseologia democrática do Estado burguês esconde a desigualdade econômica no interior da esfera jurídica e política, a fraseologia soviética esconde a própria possibilidade de se compreender a diferença ao passo que favorece a eliminação da adversidade.

A resistência

As formas do irrealizado no interior do discurso revolucionário de cada época tendem a se transformar conforme as diferentes manifestações ideológicas e discursivas que cada formação social carrega consigo.

Este irrealizado parece ser o próprio lugar discursivo da revolução, o princípio do discurso revolucionário. Diferentemente de uma percepção da revolução que seria factível simplesmente por uma coesão teórica e acadêmica, por elaborações filosóficas e históricas sofisticadas que seriam o objeto de fé da possibilidade revolucionária ou da crença de que a revolução estaria presente de maneira latente no interior do próprio povo, sempre dominada e restringida, Pêcheux confere à própria falha do ritual de interpelação ideológica a possibilidade do ato revolucionário ou da criação de seu discurso.

O entendimento daquilo que é um discursivo revolucionário, portanto, se refere diretamente à possibilidade da não identificação em relação à ideologia e ao discurso que promovem o ritual de interpelação (Pêcheux, 1995).

Sendo assim, compreender as resistências teria lugar central no empreendimento de uma genealogia do discurso revolucionário.

As resistências: não entender ou entender errado; não “escutar” as ordens; não repetir as litanias ou repeti-las de modo errôneo, falar quando se exige silêncio; falar sua língua como uma língua estrangeira que se domina mal; mudar, desviar, alterar o sentido as palavras e das frases; tomar os enunciados ao pé da letra; deslocar as regras da sintaxe e desestrutura o léxico jogando com as palavras… (Pêcheux, 1990, p. 17).

Compreende-se que este ato de não entender ou entender errado não é meramente consciente ou intencional, na medida em que a intencionalidade da péssima compreensão compreende a boa compreensão como seu pressuposto.

Por ser uma falha de um ritual, a alteração do sentido ou a tomada ao pé da letra se faz para além de uma brincadeira. Insere-se, assim, num momento de luta, de criação, de novidade, de abertura para um outro campo semântico.

E assim começar a se despedir do sentido que reproduz o discurso da dominação, de modo que o irrealizado advenha formando sentido do interior do sem-sentido (Pêcheux, 1990, p. 17).

Pois, apesar do não entendimento não ser meramente consciente, sua prática intencional assim será. Desta forma, a abertura para o nascimento do novo se dá justamente no assentamento do velho, num processo (talvez) irracional de construção de uma nova racionalidade. Sendo assim, a serialização dos processos de quebras presentes nos rituais ideológicos.

E através destas quebras de rituais, destas transgressões de fronteiras: o frágil questionamento de uma ordem, a partir da qual o lapso pode tornar-se discurso de rebelião, o ato falho, de otim e de insurreição: o momento imprevisível em que uma série heterogênea de efeitos individuais entra em ressonância e produz um acontecimento histórico, rompendo o círculo da repetição (Pêcheux, 1990, p. 17).

Segundo Pêcheux, o acontecimento histórico é “um elemento histórico descontínuo e exterior” (Pêcheux, 1999, p. 49), é um evento que causa nova leitura dos acontecimentos. Esta nova leitura é preenchida por acontecimento discursivos, ou seja, por quebras na memória discursiva que impedem a reprodução, a repetição no interior do intradiscurso.

Considerações finais

A resistência é uma elaboração do erro que e repete até tranformar o próprio sentido. Se o discurso é um efeito de sentido entre locutores (Pêcheux, 1997) e, ao mesmo tempo, o sujeito do discurso é interpelado por formações discursivas, é necessário lembrar que todo ritual está sujeito a falhas e, portanto, todo discurso está sob a tensão do erro que abre margens para uma nova semântica.

Referências

ALTHUSSER, L. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. 3 ed. Lisboa: Editorial Presença/Martins Fontes, 1980.

PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Traduzido por Eni Pulcinelli Orlandi, Lorenço Chacon J. filho, Manoel Luiz Gonçalves Corrêa e Silvana M. Serrani, 2ª ed., Campinas: Editora da Unicamp, 1995.

PÊCHEUX, Michel. Análise automático do discurso (AAD69) IN GADET, F. HAK, T. (Org.). Por Uma Análise Automática do Discurso: Uma Introdução à Obra de Michel Pêcheux. 3ª Ed. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1997.

PÊCHEUX, M. Papel da Memória. IN: Papel da Memória. Pierre Achard et al. Tradução: José Horta Nunes. 1ª edição. Campinas, SP: Pontes, 1999.

Curso introdutório

Michel Pêcheux foi o pioneiro da criação da análise do discurso francesa, conhecida como AD. Sua teoria é um entrecruzamento entre linguística, história e psicanálise, com o materialismo histórico utilizado como base ao entendimento das formações sociais, a linguística estrutural para o entendimento dos mecanismos sintáticos e a psicanálise freudo-lacaniana para a compreensão do sujeito como aquilo que é clivado.

O objetivo deste curso introdutório é fornecer uma visão sistemática das três fases da AD, de maneira que cada inscrito(a) consiga ter clareza e entendimento necessário para levar adiante leituras de Michel Pêcheux e de analistas do discurso pecheuxtianos, conquistando, com autonomia, o olhar próprio da análise do discurso francesa.

Quais tópicos serão abordados?

AD 1ª fase (entenderemos como Pêcheux entendeu Ferdinand de Saussure e o corte entre a língua e a fala, também passaremos por suas noções que envolvem uma visão marxista da história e compreenderemos como funciona o processo de interpelação ideológica inserido na perspectiva de uma AD):

  • O corte entre a língua e a fala;
  • Ideologia para Althusser;
  • As condições de produção do discurso;
  • As formações imaginárias;
  • A máquina discursiva;
  • O sujeito da AD1.

AD 2ª fase (neste momento, falaremos sobre as mudanças que são inseridas na AD através da adição do interdiscurso e conseguiremos refinar os conceitos iniciais da primeira fase):

  • As formações discursivas;
  • As formações ideológicas;
  • O interdiscurso;
  • O sujeito da AD2;

AD 3ª fase (compreenderemos aqui, como Pêcheux percebeu a possibilidade de um sujeito completamente disperso, clivado, cindido e como passou a guiar sua análise do discurso com a completa primazia do outro):

  • A explosão do conceito de formação discursiva;
  • O sujeito cindido da AD3.

Curso online com acesso vitalício; 

Duas horas (2 horas) de duração;

Através da plataforma do Hotmart;

Com emissão de certificado;

Acesso livre ao professor;

O valor investido no curso é de R$ 70,00.

Curso será ministrado por:

Vinicius Siqueira é mestre e doutorando em Educação e Saúde pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

É também responsável pelo portal de conteúdo de ciências humanas Colunas Tortas. É autor de “Foucault e a Arqueologia”, “Homo Psychologicus: Lendo Doença Mental e Psicologia de Foucault” entre outros e-books.

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