“A oposição entre cultura e natureza é estruturante do ser humano” (Bessa, 2021, p. 260) e, justamente por isso, as considerações acerca da própria divisão sexual do trabalho também são trabalhadas a partir desta oposição.
A expressão “homem na cozinha” é discursivamente diferente da “mulher na cozinha”. A diferença está na própria profusão de sentidos e de memórias discursivas que são ativadas em suas enunciações.
Na oposição entre cultura e natureza, outras oposições são pressupostas: como aquela entre o conhecimento e o instinto. Se cultura acontece no desenvolvimento do trabalho do homem sobre a natureza e se a natureza é a condição “entregue” pelo mundo ao trabalho do ser humano, então o conhecimento é fruto deste trabalho de reflexão sobre o mundo enquanto a natureza é a simples obviedade daquilo que já é e não poderia ser outra coisa.
O conhecimento funciona como ferramenta para dominar a natureza e, assim, impor um domínio do próprio pensamento sobre a matéria bruta. Esta oposição é similar aquela entre atividade e passividade. O conhecimento enquanto pura atividade funciona como ferramenta de introdução do ser humano na própria realização do mundo, enquanto a natureza, aquilo que é o que é, passivamente recebe a atividade humana.
Ao mesmo tempo, também é necessário lembrar da oposição entre o sujeito civilizado, tomado pela cultura e pelo conhecimento, e o sujeito primitivo, alvo dos iniciais estudos antropológicos que buscavam um funcionamento quase que natural do sujeito em sociedade.
A partir destes pares de oposições, o homem é o próximo na série da atividade, da cultura e do conhecimento, enquanto a mulher é a próxima na série da natureza, do primitivo, da passividade.
Os homens, detentores do conhecimento (cultura), como sendo os indivíduos sociais que detêm o poder e os que possuem a natureza (que é feminina). Essa posse compreende a subordinação das mulheres como categoria de natureza. A natureza que pode ser moldada e dominada pelo conhecimento. Isso dá uma boa possibilidade de explicação do motivo pelo qual as mulheres ainda estão tão presentes na cozinha, considerado socialmente como um trabalho inferior, de cuidado, e, muitas vezes, sequer considerado como trabalho (Bessa, 2021, p. 261).
A mulher, passiva, exerce a atividade na cozinha doméstica, enquanto o homem, ativo, exerce a atividade profissional ou artística da cozinha. Nas minhas palavras: enquanto mulher é cozinheira, homem é chef. Isso é evidenciado na próxima pesquisa de Bessa (2021) a partir de um questionário sobre a pessoa que era responsável por cozinhar dentro da casa dos entrevistados:
Deste modo, quando perguntado “quem normalmente prepara as refeições da casa no dia a dia atualmente”, o questionário obteve uma resposta que evidenciou, mais uma vez, a presença do gênero feminino na cozinha, pois 80% das respostas indicaram que são as mulheres que fazem este trabalho. Mulheres que podem ser as mães, irmãs, tias, avós, a própria pessoa do gênero feminino que respondeu o questionário, ou ainda trabalhadoras domésticas – estas últimas sempre especificadas como sendo do gênero feminino (p. 261).
A cozinha é um território historicamente feminino no Ocidente. Foi a partir do século passado que este ambiente, aos poucos se masculinizou. A passagem da cozinha doméstica de um ambiente eminentemente dominado pela figura feminina em um ambiente discursivamente construído para ser o palco da “brincadeira de chef” do homem se instala em conjunto com o típico preconceito do trabalho doméstico enquanto um não-trabalho feminino. O homem que cozinha pode ser reconhecido como um homem feminilizado assim como enquanto um homem artista, dotado de uma capacidade ligada à alta gastronomia. Uma diferença clara entre o ato de cozinhar enquanto ato de alimentação de prole e do ato de cozinhar enquanto exercício da excelência ou do prazer.
Mais do que o simples cozinhar, a difusão da boa cozinha – este parece ser o ponto – é que se masculiniza na história da gastronomia. O mais claro ponto de inflexão nessa trajetória encontra-se na vida e obra de Auguste Escoffier. Ele foi o primeiro chef da Alta Cozinha francesa a não trabalhar em casas de nobres, tendo toda sua vida dedicada ao ofício público que se exerce em restaurantes, clubes e hotéis.
É significativo ainda que, sendo ele quem sistematizou a culinária de modo a transformá-la numa atividade seriada e lucrativa, capaz de dar grande impulso à nascente indústria hoteleira de feitio burguês, tenha se ocupado, já na fase final de sua carreira, a estabelecer o que as donas de casa francesas deveriam fazer em suas cozinhas, escrevendo para elas o seu Ma cuisine, em 1934 (1997a). Antes disso, Escoffier estava ocupado em definir um ofício do qual não participariam as mulheres e, por isso, devia se ocupar do “lugar” da mulher na sociedade, reforçando a ideia de que a ela estava reservada a família, não a indústria hoteleira. Em síntese, não era por tradicionalmente “saber cozinhar” que ela deveria alçar novos voos. A sua ocupação deveria ser a “nutrição” dos homens (Dória, 2012, p. 260).
A passagem da figura do homem como chef se dá num contexto de domínio masculino da vida pública num espaço social de empreendedorismo na esfera burguesa. A oposição entre cultura e natureza também é base para se compreender a oposição entre vida pública e vida privada.
Em conjunto a isso, a vida pública no interior do capitalismo do chef de cozinha também trouxe a padronização, a serialização e a inserção da tecnologia como elemento fundamental no ato de cozinhar com excelência.
É verdade que o saber feminino ainda é celebrado numa vasta literatura culinária, mas não se pode dizer que a cozinha continue um universo fechado sobre a feminilidade. A urbanização acabou com o monopólio feminino sobre o cozinhar e isso se deu de duas maneiras: pela externalização dos processos culinários, diminuindo a importância da casa e serializando a produção, e pela cristalização dos gestos culinários em ferramentas, isto é, desincorporando-os (Dória, 2012, p. 264).
A presença do chef ao lado de novas tecnologias à venda em revistas de culinária representa esta associação da figura masculina com a alta cozinha, com a gastronomia de performance, com a gastronomia enquanto aquilo que foge da primitivez do gesto técnico do corpo.
Evidentemente, estas condições de possibilidade da emergência do homem que cozinha em ambientes profissionais e domésticos não representa a realidade da maioria das famílias, mas, ao mesmo tempo, funciona como base para fundamentação da própria sociabilidade e da divisão sexual do trabalho no ambiente doméstico.
Ou seja, é a base para se entender como a cozinha continua, até hoje, a ser um território feminino mesmo com a participação de homens no fazer culinário do dia a dia. A realidade percebida da exaltação e da especialização de homens chef, ao mesmo tempo, da posse não consultada da cozinha da casa pelas mulheres existem no bojo da construção discursiva destes espaços e destes sujeitos.
A obrigação do ato de cozinhar para nutrir a prole se opõe à preferência pela cozinha no ato profissional do fazer culinário. Desta forma, se “mulher na cozinha” reproduz a desigualdade de gênero num gesto de evocação de uma suposta natureza feminina no ato de cuidar, “homem na cozinha” evoca a habilidade ou o estranhamento de um sujeito não pertencente à cozinha doméstica que, quando toma sua posse, a transforma em outro espaço discursivo.
Referências
Bessa, A. C. (2021). A Sociologia das Cozinhas – usos, práticas sociais, relações de gênero e de trabalho no cotidiano da cozinha das casas. Sociologias Plurais, 7(3). https://doi.org/10.5380/sclplr.v7i3.82346
Dória C. A. Flexionando o gênero: a subsunção do feminino no discurso moderno sobre o trabalho culinário. Cadernos PAGU, 2012.
Escoffier, Auguste. Ma cuisine (1934). Paris, Flammarion, fac-símile, 1997a.
Curso introdutório

Michel Pêcheux foi o pioneiro da criação da análise do discurso francesa, conhecida como AD. Sua teoria é um entrecruzamento entre linguística, história e psicanálise, com o materialismo histórico utilizado como base ao entendimento das formações sociais, a linguística estrutural para o entendimento dos mecanismos sintáticos e a psicanálise freudo-lacaniana para a compreensão do sujeito como aquilo que é clivado.
O objetivo deste curso introdutório é fornecer uma visão sistemática das três fases da AD, de maneira que cada inscrito(a) consiga ter clareza e entendimento necessário para levar adiante leituras de Michel Pêcheux e de analistas do discurso pecheuxtianos, conquistando, com autonomia, o olhar próprio da análise do discurso francesa.
Quais tópicos serão abordados?
AD 1ª fase (entenderemos como Pêcheux entendeu Ferdinand de Saussure e o corte entre a língua e a fala, também passaremos por suas noções que envolvem uma visão marxista da história e compreenderemos como funciona o processo de interpelação ideológica inserido na perspectiva de uma AD):
- O corte entre a língua e a fala;
- Ideologia para Althusser;
- As condições de produção do discurso;
- As formações imaginárias;
- A máquina discursiva;
- O sujeito da AD1.
AD 2ª fase (neste momento, falaremos sobre as mudanças que são inseridas na AD através da adição do interdiscurso e conseguiremos refinar os conceitos iniciais da primeira fase):
- As formações discursivas;
- As formações ideológicas;
- O interdiscurso;
- O sujeito da AD2;
AD 3ª fase (compreenderemos aqui, como Pêcheux percebeu a possibilidade de um sujeito completamente disperso, clivado, cindido e como passou a guiar sua análise do discurso com a completa primazia do outro):
- A explosão do conceito de formação discursiva;
- O sujeito cindido da AD3.
Curso online com acesso vitalício;
Duas horas (2 horas) de duração;
Através da plataforma do Hotmart;
Com emissão de certificado;
Acesso livre ao professor;
O valor investido no curso é de R$ 70,00.
Curso será ministrado por:

Vinicius Siqueira é mestre e doutorando em Educação e Saúde pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo.
É também responsável pelo portal de conteúdo de ciências humanas Colunas Tortas. É autor de “Foucault e a Arqueologia”, “Homo Psychologicus: Lendo Doença Mental e Psicologia de Foucault” entre outros e-books.
Instagram: @viniciussiqueiract
Vinicius Siqueira de Lima é mestre e doutorando pelo PPG em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da UNIFESP. Pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e editor do Colunas Tortas.
Atualmente, com interesse em estudos sobre a necropolítica e Achille Mbembe.
Autor dos e-books:
Fascismo: uma introdução ao que queremos evitar;
Análise do Discurso: Conceitos Fundamentais de Michel Pêcheux;
Foucault e a Arqueologia;
Modernidade Líquida e Zygmunt Bauman.


