Quando a obra de arte é produzida, não pertence mais ao autor. Quando o autor a produz, ela passa a ser objeto. Mesmo que seja produto da consciência do autor, mesmo que seja produto do esforço solitário do criador, a obra de arte não se constitui somente pelo trabalho, mas também pelo olhar. Este texto busca se inserir na mesma conversa iniciada pela pesquisadora Lorena Varela no texto “Existe crime na literatura?”, publicado no Medium da UNIFESP.
O olhar não é um ato meramente subjetivo, pois é uma prática social. Olhar é aplicar as malhas da linguagem sobre o objeto e torná-lo passível de reconhecimento, ainda que seja a partir do estranhamento. Olhar é aplicar o discurso no mesmo momento em que o discurso nos conduz, como fica subentendido nas arqueologias do saber foucaultianas, principalmente em O Nascimento da Clínica (1977). Talvez, também, em História da Loucura (2012) isso seja facilmente observável, na medida em que o olhar sobre o louco — a possibilidade de sua identificação sem a necessidade da presença de um médico — é um dos enunciados delimitados por Michel Foucault.
O estranho também é signo linguístico e também define a posição da obra frente ao conjunto de obras reconhecíveis e classificáveis. A não classificação do estranho é, por si só, uma classificação fluida que concentra aquilo que não se enquadra nas categorias comuns do entendimento do produto artístico.
Recepção
Para além da relação do autor com sua produção, portanto, há uma segunda relação relevante e talvez primária: a do receptor com a obra. Este, por sua vez, não tem contato com a obra a partir do nada. Seu contato existe no interior de uma sociedade estruturada, com circuitos de distribuição e legitimação de arte, com a autonomia de um campo artístico (Bourdieu, 1996). Todos esses elementos, por sua vez, são incorporados pelos sujeitos enquanto vivem suas vidas. A arte legítima ou ilegítima, a boa ou péssima arte, a arte que faz ou não sentido, todas elas existem no interior de uma estrutura de distribuição e legitimação que torna possível a própria existência da arte enquanto objeto principal do olhar de determinados agentes sociais que ocupam determinadas posições, com determinados cargos e determinadas funções, etc. O olhar do espectador passivo não será o mesmo daquele produzido pelo avaliador de uma revista especializada.
Dito isso, a obra circula. O agente social tem na obra uma concretização de um gosto socialmente inculcado. Um gosto sempre em disputa. Esta não é, evidentemente, a única dimensão da obra. Ela pode participar de um olhar biográfico ou psicológico, servindo de base para remontar a trajetória de vida ou as tensões pessoais de um autor; pode ser vista a partir de suas condições de produção; pode ser vista como marco criativo de uma consciência livre, etc. Diante de tantas formas de se observar a arte, o olhar fora do campo artístico tende a ser ético, focado na posição do autor.
O autor
A posição do autor é um elemento fundamental na centralização ética do olhar leigo sobre a arte. Segundo Pierre Bourdieu, há uma tendência de agentes sociais sem acúmulo do capital cultural artístico específico — para construir estruturas cognitivas que permitam o afastamento e posterior reconhecimento da obra enquanto parte de um movimento, de uma história, de uma tendência ou de um conceito — aplicarem uma gama de critérios de compreensão baseados na ética de vida.
Desta forma, a obra não é objeto, mas é expressão da vida. Simboliza uma relação funcional que se tem sobre a obra ou, e aqui eu acrescento, sobre o autor. A obra, assim, serve para algo. Ou ela é bonita o bastante para ser colocada na minha sala, ou é feia o bastante para que eu nunca mais a queira ver ou, no limite, ela me diz muito sobre quem a fez, na medida em que não me diz nada sobre si.
A ética da vida enquanto mecanismo de significação da obra é resultado de uma vida desprovida da introdução do agente em espaços em que as regras da arte, o capital cultural específico, circula e pode ser incorporado. Este capital específico é incorporado desde a tenra infância em famílias preenchidas pela cultura legitimada, desde o momento em que a criança entra em contato com diferentes obras, com instrumentos musicais, com a história da arte, com diferentes produções cinematográficas, passa a ter contato com o teatro e com museus enquanto um membro legítimo e, pouco a pouco, cada vez mais capaz de compreender o que são os elementos culturais que aparecem para seu olhar. Daí vem o olhar seguro sobre a obra. O olhar que capta a forma, não meramente a função. A obra é algo, não só serve para algo (Bourdieu, 2017).
A posição-autor, ao concentrar a responsabilidade jurídica e o trabalho da produção de uma obra numa perspectiva ética, tende também a concentrar a responsabilidade ética de sua produção e, no limite, a raiz de sentido da obra. Se uma obra sobre incesto é produzida, entende-se que, provavelmente, o autor tem alguma relação íntima com este tema.
Distinção
O olhar, assim, também revela uma forma específica de distinção, na medida em que a observação da forma e da função trabalham em níveis diferentes e correspondem a agentes sociais constituídos por habitus — sistemas de disposições práticas para compreender e agir no mundo — diferentes. Desta forma, as obras destinadas aos indivíduos de fora do circuito artístico, as obras de banca de jornal, os romances de ghostwriter, tendem a abordar temas comuns, com uma estrutura narrativa comum e uma construção previsível de personagens. Funciona quase como uma revelação da vontade do leitor escrita no livro e, ao mesmo tempo, uma confirmação identitária de que o autor “está comigo”, “me entende”, “me descreve”.
Já os livros tabu, que abordam temáticas difíceis e polêmicas, ficam restritos a um círculo cujas instâncias de validação e crítica são mais importantes que os números de venda. A divisão da forma de se relacionar com o livro coincide com uma divisão da distribuição do capital cultural que, por sua vez, tende a coincidir com uma divisão de classe. A vida culturalmente enriquecida das classes médias ou altas permite a entrada de mais indivíduos destes estratos nos círculos culturais legitimados e, mais ainda, permite a contínua legitimação das mesmas formas de produção cultural, reproduzindo as formas de distinção e de dominação.
A aproximação do sujeito à obra enquanto uma representação ética do autor, desta forma, é o produto de uma divisão que existe no interior de uma sociedade segregada: importa a vida do autor mais que tudo na medida em que, menos que nada, não se tem critérios para avaliação da obra enquanto objeto artístico descolado da posição-autor.
Referências
BOURDIEU, Pierre. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. 2ª ed, Porto Alegre, RS: Zouk, 2017.
FOUCAULT, Michel. O Nascimento da Clínica Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1977.
FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 9ª edição, 2012.
Instagram: @viniciussiqueiract
Vinicius Siqueira de Lima é mestre e doutorando pelo PPG em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da UNIFESP. Pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e editor do Colunas Tortas.
Atualmente, com interesse em estudos sobre a necropolítica e Achille Mbembe.
Autor dos e-books:
Fascismo: uma introdução ao que queremos evitar;
Análise do Discurso: Conceitos Fundamentais de Michel Pêcheux;
Foucault e a Arqueologia;
Modernidade Líquida e Zygmunt Bauman.


